Necessidade Fiandeira

Na necessidade de ser intensa até a manhã ela fiava seu coração na roca que nunca acaba; ela hipotecava seu sangue de dedo mindinho, na promessa de intensidade. O que dava trabalho era o filho, filhinho. Moleque peralta e inquieto, saltitoso e manhento. Pulava igual capeta, pra desgosto e distração. Pulava e perguntava, ininterruptamente.
O pequeno tinha o que fazer: fazia e refazia, e a inquietude da mãe só que crescia. Pegou piolho, pegou passarinho, rabiscou parede, saia e porta. Pegou pipa, skate e bicicleta, e num grande dum cansaço ficou diferente: arranjou um pezinho de feijão, depois de violeta, mais tarde de gerânio. A mãe, dele pegou ciúme ― na inesperada quietude do garoto voltou-se toda para ele a lhe cuidar a calmaria. Teve uns cansaços de falta de irritação, estressou de não ter do que estressar. O menino não mais dela.
Foi assim crescendo o garoto que instalou-se em casa o gerenciamento de atividades. A mãe, tecelã de um humanozinho, era estética e artística: fiava seu próprio sangue na promessa de intensidade materna.
Um dia o angustiado avisou, já no leito de dormir:
― Mãe, tô indo aguar os vasos.
― Não vai não.
― Por que não?
― Por que eu sei que você sobrevive até amanhã cedo sem fazer isso.
Pois ele sobrevivia: só não sobreviveu ao enfarte prematuro, raro e fulminante. Coisa estranha de se acontecer, mas eis que assim foi. Morreu o garoto. A mãe ― acordada até de manhã cedo, fiando o coração na roca do remorso.

As Fiandeiras - Velásquez

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Que nos dispam da lógica

Fogos de artifício em noite de lua cheia. Brilhos se confundem. Mãos se confundem. Vozes se emaranham e fazem música. A latência do universo abaixo do firmamento – que são pernas estremecendo, embora resistam aos malabarismos de um amor barato e bailem crentes na penumbra do prazer. Não importa quão fatídico pareça viver da esmola do desejo. É preciso nutrir o corpo com a liberdade de gozar dos infortúnios para que haja (nem que seja num estalo) o valimento do delírio.
Areia nos pés em noite de lua mansa. Ritmo nos passos. Ecos da respiração que conta uma lenda sobre deusas e deuses e outras entidades. Estrelas anônimas suspensas em constelações, fazendo caretas galácticas para divertir o sol que se irrita e colore suas bochechas. É o grito do universo reverberando nas entranhas da terra morna. A bruxaria que entorna caldeirões de intensidade sobre a dormência que afeta os sentimentos mais oníricos. Eis as rugas do destino a demonstrarem certo cansaço. Eis que somos tudo e todos e ainda assim, há mistério.

Carla Dias

A estréia para a promoção é o conto de Carla Dias – Que nos dispam da lógica. Até o dia 21/02 este conto estará disponível para crítica. Boa sorte!!

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A história do E-contos

Ano passado, como uma forma de juntar dois objetivos – promover novos autores e o uso de e-books e e-readers, a editora Ficções, em pareceria com a Gato Sabido, lançou um concurso de contos onde o (na verdade a) primeiro(a) colocado(a) ganhou um e-reader (essa aqui) e todos os contos foram reunidos numa coletânea publicada somente te formato digital. Nasceu o E-contos!

Houve lançamento na Bienal do Livro e tudo. E esse movimento todo aproximou a turma de autores, que começou a interagir e trocar idéias* sobre literatura, livros e contos. Assim nasceu criou esse blog, com o propósito de divulgar  o e-book (não só esse, mas qualquer ebook) e outras produções – inéditas ou não.

E você?? Já leu um ebook?? Quer começar com essa rica coletânea aqui? Acompanhe as promoções do blog…

* sou contra o acordo ortográfico!

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E-books, e-readers, e-contistas…

Os e-books já chegaram há algum tempo no mercado, com variações de oferta e variedade em diferentes países, mas chegaram e não vão partir (o que naturalmente não significa substituição dos livros físicos!). Ainda são timidamente consumidos aqui no Brasil.

Os e-escritores já são também coisa antiga e os blogs, especialmente os focados em literatura, além dos portais especializados, não desmentem isso. Por que, então, ebooks ainda vem tão pouco?

Uma das razões é que os e-readers ainda são caros e não existe consenso quanto ao melhor modelo para cada estilo de leitor. Muitos alegam que ler no computador, apesar do bom layout do Adobe Digital Editions, é cansativo. Mas quantas laudas lemos ao longo do dia nos portais de notícia e nos blogs?

Não, este blog não é mais um entre vários onde novos autores lamentam as dificuldades do mercado editorial e questionam o papel dessa nossa ferramenta na divulgação da literatura. E não porque esses sejam assuntos impertinentes, mas porque um grupo de e-contistas resolveu ir à luta por leitores para seu ebook. E valem golpes baixos para isso! Aguardem!

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