Atropelo

Eclipse nas coincidências do mundo: algo deixou de acontecer por mero acaso e aconteceu por puro capricho do que acontecia. Explicando: não foi por coincidência, o acontecido se deu por ter sido tramado pelo próprio acontecimento. Desmintam, neguem, tripudiem ― já está feito.

Foi assim: ele atravessava a rua, o outro dirigia. Quando houve o atropelamento, foi um remexer de asas, um girar de bandeiras, um bater de hélices.

― Ele apareceu do nada! ― Desculpou-se o que dirigia. ― Foi uma comunhão de máquina e sangue, capô e pernas ― concluiu ele.

Estavam em meio ao público, boquiaberto e entretido, esperando um pouco mais de vísceras e motivos para continuar a atravessar as ruas.

― O carro surgiu de lugar nenhum! ― Lamentou-se o atropelado, ― foi um encontro de surpresa e dor, de faixa de pedestres e indenizações.

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Sobre Fernando Salvaterra

Alguns contos escondidos por aí. Procuro tempo. Espero cair de maduro.
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