Minguante

   Quando comi pimenta na casa dele, e a ardência me inundou os olhos, não reclamei. Acho mesmo que foi gostoso porque o incêndio da boca ficou guardado para a madrugada intensa. Era uma ardência amansada com a doçura que eu imaginava nele.
   O sal de agora não é para intensificar sabor, é somente a troca da indelicadeza de sempre pelo abandono. Largada. Sozinha. Vão apontar o dedo para mim na rua e dizer que mereci. Rapaz direito como ele não faria isso de graça.
   E eu penso que não saberei me defender e me revolto com essa fraqueza para reagir. Onde se viu ficar desmoronando, sentada na cama, quando depois da vidraça o retalho de lua insiste, amarelada e intensa, mesmo com toda a nebulosidade? Sem cabimento isso.
   Vou até a janela e o lago dourado abaixo do furo nas nuvens parece um poço. Plenilúnio. Lembro dessa palavra somente quando se aproxima o quarto minguante. Incoerente isso, mas é desse jeito que acontece. Na primeira vez que li o termo tive de procurar no dicionário. Eu era tão curiosa.
   Sinto uma crosta seca no rosto depois de tantas camadas de pranto, devo estar horrível, com ares de hipnose, ausência, sei lá. E se eu me cansasse, e se essa mágoa sumisse? Se eu sumisse? Ele não vale isso, nunca se importou muito comigo e, pior de tudo, nunca sequer fingiu se importar. E admitir isso é uma fincada a mais da mesma dor. A de sempre, a de não se bastar.
   E agora esse telefone tocando. Muito tarde, mesmo que ele quisesse sanar a ofensa, fazer planos, dizer carinho. Besteira. Não pode ser ele, é orgulhoso feito nem sei o quê. Não atendo, não quero falar. Preciso mesmo é dormir, sonhar, cantar alto como se estivesse bêbada. Será que estou?
   O céu parece chumbo grumoso, promessa de frio. Odeio frio e garoa, por que não me vem o sono? E se eu acordasse cheia de ímpetos? Mandá-lo longe antes de ele oficializar o que iniciou batendo à porta. Ao menos um ensaio de orgulho. Funcionaria?
   Não fosse essa coisa de lógica e biologia, da vida real, enfim, eu poderia metamorfose. Um enredo sobrenatural, abrir as comportas da ferocidade que ninguém suspeita no meu corpo magro. No lugar disso, olho a luz de cabeceira e as palavras dele parecem ecoar dali e se grudar nas paredes. E eu faço o quê? Mais converso para dentro que vivo. Falo para fora também: encaro o espelho como se fosse ele e atiro xingamentos frouxos. Aliás, o vidro está muito sujo, marca de dedos e cabelos molhados de quando fico aqui confabulando com minha cara insone. Desvio do vermelho das pálpebras, e acho bonitos meus cílios. Mas isso ele nunca me disse. Só afagos corretos enquanto eu, por dentro, berrava funduras de encharcar os dedos. Ele beijava minha testa. Vê se pode!
   Ainda não é madrugada, mas a noite já não é a que começou ontem. Deve ser esse o gosto do fim quando não vem certeza de outro começo. Não vou me vestir, podem pensar que enlouqueci. Vai parecer isso mesmo se me enxergarem com esses sapatos cravando na areia. Uma ave daquelas predadoras. Ah essa figura me serve! Não mais o roxo nos lábios e sob as unhas quando venta úmido assim. Águia-pescadora é o nome da espécie migratória que o guia turístico nos mostrou naquele feriadão. Garras fortes.
   Escrever epílogos na areia é ridículo, por isso mesmo vou fazer. Afundo o saldo para o contorno de cada letra, raivosa, como se fosse uma bofetada no sorriso educado dele, e amanhã ele terá trabalho para escapar das unhas, das asas do animal que consegue teimar com qualquer mau tempo. Se não chover muito forte vai reconhecer a letra e pensar que morri, que fugi ou andei bebendo outra vez, mas não me encontrará.

Uma variação desse mesmo tema foi publicada na época da Revista Mirabolante, mas utilizando narração em 3ª pessoa. A mudança, me parece, tornou tudo mais incisivo. E mais recentemente, foi postado no Pedaços de Possibilidade.

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Sobre mkalves

leio, escrevo, leio e leio, depois releio. saio e danço. escrevo. durmo. leio. mas não li ainda quase nada do que deveria e do que preciso. cozinho, brinco, rio, amo e leio. ouço música com atenção. rabisco meus livros. gosto de sol.
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2 respostas para Minguante

  1. Perfeito. Ótimo ritmo, palavras, expressões. Adorei. Acho que você escreveu o que todo mundo, um dia, já sentiu. Não se assuste se este texto se espalhar.
    Beijo.

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