Necessidade Fiandeira

Na necessidade de ser intensa até a manhã ela fiava seu coração na roca que nunca acaba; ela hipotecava seu sangue de dedo mindinho, na promessa de intensidade. O que dava trabalho era o filho, filhinho. Moleque peralta e inquieto, saltitoso e manhento. Pulava igual capeta, pra desgosto e distração. Pulava e perguntava, ininterruptamente.
O pequeno tinha o que fazer: fazia e refazia, e a inquietude da mãe só que crescia. Pegou piolho, pegou passarinho, rabiscou parede, saia e porta. Pegou pipa, skate e bicicleta, e num grande dum cansaço ficou diferente: arranjou um pezinho de feijão, depois de violeta, mais tarde de gerânio. A mãe, dele pegou ciúme ― na inesperada quietude do garoto voltou-se toda para ele a lhe cuidar a calmaria. Teve uns cansaços de falta de irritação, estressou de não ter do que estressar. O menino não mais dela.
Foi assim crescendo o garoto que instalou-se em casa o gerenciamento de atividades. A mãe, tecelã de um humanozinho, era estética e artística: fiava seu próprio sangue na promessa de intensidade materna.
Um dia o angustiado avisou, já no leito de dormir:
― Mãe, tô indo aguar os vasos.
― Não vai não.
― Por que não?
― Por que eu sei que você sobrevive até amanhã cedo sem fazer isso.
Pois ele sobrevivia: só não sobreviveu ao enfarte prematuro, raro e fulminante. Coisa estranha de se acontecer, mas eis que assim foi. Morreu o garoto. A mãe ― acordada até de manhã cedo, fiando o coração na roca do remorso.

As Fiandeiras - Velásquez

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Sobre Fernando Salvaterra

Alguns contos escondidos por aí. Procuro tempo. Espero cair de maduro.
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7 respostas para Necessidade Fiandeira

  1. Caramba, fiquei com saudades de meus filhotes!

    E que texto delicioso!

    Abs. fr.

  2. Tânia Lopes disse:

    E é assim, quando pequenos sabemos que são pessoas diferentes de nós, mas os temos como “nossos” filhos, quando passam a ser nossos filhos (sem as aspas), sem aquele sentido de propriedade embutido, vemos neles o espelho de cada minuto de atenção que dedicamos a eles, e já não reclamamos mais por falta de tempo, e aprendemos que nunca deveríamos tê-lo feito.
    Doce inspiração a sua!

  3. Emilie disse:

    Quando a gente lê coisas que na gente tocam, penetram, embaralham as coisas lá de dentro, a gente fica assim, como eu estou agora: com a visata embaçada daquele fio de lágrima na beira dos olhos e um leve arrepio que levanta os pelos dos braços. Desculpe se agora não posso tecer uma opinião menos subjetiva…

  4. É a velha história de que reclamamos quando temos e, quando não temos mais, ficamos melancólicos e reclamamos de novo. Que final belo e trágico.

  5. mkalves disse:

    bárbaro, Fernando. Gostei muito mesmo. Suscinto, tocante e absolutamente verdadeiras as comuns emoções do egoísmo e oscilação.

  6. Belo texto, Fernando.
    Não é para todos dizer as tragédias e os sentimentos nem sempre acolhedores do ser humano com a poesia tão cativante. Gosto do ritmo da sua escrita, da forma como o cenários e forma e a história é contada.
    Carla.

  7. fsalvaterra disse:

    Pessoal, valeu mesmo os comentários. Tive receio desse conto de eco amargo não agradar. Obrigado pela leitura :)

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