A estética dos e-books*

Sabe-se (ou supõe-se, já que não localizei dados confiáveis e atualizados a respeito) que o número de e-readers circulando por aí ainda é baixo e, apesar da venda de tablets andar bem, não podemos comparar aparelhos com objetivos tão distintos (não se deve esperar que donos de tablets dediquem grande parcela do tempo de uso do dispositivo com e-books). Admitamos também que, apesar de termos uma realidade em que a imensa maioria das pessoas  que lê e-books no Brasil ainda o usa o computador para isso, ainda vale a pena gastar um tempo discutindo a  qualidade de edição dos e-books focando especificamente a leitura em e-readers.

Levanto a questão porque, além de ver discussões envolvendo desde custo de produção (conversão x produção de e-books),  passando por uma preocupação não completamente enraizada sobre estética dos e-books e chegando ao potencial ainda pouco explorado de uso dos recursos de hipertexto e imagens, sou uma leitora chata. Isso significa dizer que, apesar de priorizar conteúdo, não consigo desprezar a forma.

Nesse sentido, tenho certas queixas sobre alguns produtos à disposição na Kindle Store. No quesito aparência, os livros, especialmente de poesia (comprei alguns do Fernando Pessoa por ótimos preços há tempos atrás), acabam perdendo muito do
enlevo da leitura por conta de uma edição deficiente. O texto simplesmente parece não ter passado por um processo de diagramação e, desculpem a insistência, mas a forma também importa sim, e para meu gosto, importa ainda mais no caso de poesia.

As capas das ‘Kindle Editions’ também são, em muitos casos, simplesmente inexistentes. Aparecem na página do produto e quando você efetua a compra recebe o arquivo, não há imagem de capa e, algumas vezes, sequer há informações completas sobre a edição (ano, tradutor, editora). Nesse aspecto, apesar do preço muito maior e muitas vezes questionado (incluindo-me), os produtos que tenho visto nos sites de livrarias nacionais estão muito à frente. Não estou generalizando, mesmo  porque minha amostragem de compras no mercado nacional (até pela dificuldade de convertê-los para leitura no Kindle) não pode ser considerada expressiva, mas o cuidado estético das edições daqui, parece sim maior. E isso me interessa porque a essa altura da vida me dou ao luxo de
pagar mais caro por certa edição em papel que tem esse tipo de cuidado – bom papel, boa fonte, diagramação bacana. Então, porque deveria ser diferente no e-book. Se há uma tecnologia que me permite a mesma sensação da leitura de uma página no e-reader, porque eu deveria ficar indiferente ao alinhamento do texto, à fonte utilizada, enfim, ao acabamento do e-book!?

O preço, no entanto, não é o único parâmetro a ser associado a essa qualidade, porque temos algumas publicações gratuitas (títulos em domínio público) disponíveis web adentro que contemplam esse cuidado. O que se pode concluir então?

Não. Não serei tão atrevida de usar o termo conclusão, porque isso é palpite e não pesquisa aprofundada, mas o que percebi é que, como em qualquer outro ramo de negócio, há muito oportunismo e gente ganhando dinheiro sem oferecer produto /serviço de qualidade. E isso inclui desde ofertas incríveis que oferecem templates para que qualquer um produza seu próprio e-book com aparência profissional (!?) por preços módicos até edições resultantes de conversões sem nenhum cuidado que estão à venda. Resta aos leitores-consumidores o trabalho de garimpar a qualidade esperada e cobrar quando a expectativa é frustrada.

* Este artigo foi publicado no Portal Literal, quem quiser comentar por lá…

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Carla Dias é e-contista, baterista e sua religião é a vida!

Assim como todos com quem passei interagir aqui no blog ou por e-mail depois da
publicação do E-contos, conheci a Carla no concurso literário da Ficções / Gato
Sabido. Bons acasos da vida, pois nem eu nem ela temos lá muita disciplina para
participar de todos os certames que aparecem. Carla também não participa tanto
assim desses concursos porque nem todos apresentam o desafio que lhe desperta o
interesse, mas reconhece os concursos literários como uma oportunidade para os autores
mostrarem suas obras e ganharem algum espaço.

Perguntei a ela se algum resultado de concurso fez diferença na sua carreira
literária e ela lembrou de duas situações. O concurso de poesias da Prefeitura
de São Caetano do Sul, cidade de São Paulo, em 1994, quando ficou em 8º lugar.
Foi uma inspiração para continuar a escrever. Em 2001, quando ficou em 2º lugar
em um concurso de contos, o ANE, o efeito já foi outro – o despertar de um
olhar mais crítico para a própria escrita.

Carla destaca outro veículo importante da divulgação de novos autores, que são os
editais culturais. Ela teve dois livros publicados através do ProAC – Programa
de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e destaca
isso como uma oportunidade muito valiosa.

O primeiro livro de Carla é a coletânea de contos e poemas “Azul”, publicado em
1997, de forma independente. Depois vieram dois romances “Os Estranhos” e
“Jardim de Agnes”, ambos publicados através do ProAC pela [sic] editorial, em
2009 e 2010, respectivamente. Aliás, o Jardim de Agnes eu comecei a ler na
amostra em PDF que estava disponível no site e depois fui direto ao link da
Cultura para poder conferir o final (ainda não terminei, é verdade… essa
minha mania de ler oito livros ao mesmo tempo).

Então, vamos às dicas. Para comprar os livros da Carla, basta acessar o seu site e
clicar no título, no menu – www.carladias.com. Lá estão os links para compra. O leitor também pode entrar em contato através do e-mail info@carladias.com.

Mas não ficamos só nisso, não. Além das publicações individuais, ela também participa
de projetos coletivos, além do nosso E-Contos, Carla estará no livro “Acaba
não, mundo!”, uma coletânea de textos de cronistas que escreveram e ainda
escrevem para o site Crônica do Dia.

Carla é otimista quanto ao papel das redes sociais e internet de modo geral, pois
muitas pessoas têm conhecido seus livros, lido seus contos,
crônicas e poemas, e se conectado à sua obra através dessas ferramentas.

E para não dizer que não falamos de e-book, para Carla, a principal vantagem do
livro eletrônico é justamente a possibilidade da obra chegar a lugares que não
chegaria se os escritores dependessem somente da distribuição do livro físico.
E ela não acredita que essa seja uma vantagem apenas para novos escritores. “Uma
biblioteca virtual pode unir na sua prateleira ícones da literatura e um amigo
do leitor que publicou um livro, assim como na biblioteca lá de casa”.

Nisso concordamos Carla! Também creio que o e-book veio para somar e ampliar as
possibilidades de alcance do texto, e não para substituir outros formatos.

Então, gente, bora lá conferir os links e livros da Carla, depois a gente comenta a
resenha por aqui ou no skoob, que tal!?

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Rui Werneck de Capistrano, um e-contista e muito mais

O e-conto Infausto negócio, um dos ganhadores do concurso promovido pela editora Ficções em parceria com a Gato Sabido, traz ironia e ceticismo como marca da curta trajetória descendente e infértil do seu personagem.

Para os leitores que sempre querem extrair o autor das entrelinhas, vejamos o que há de Rui naquele incerto personagem, mas veremos muito mais.

Numa conversa sem som, por anexos de e-mail, perguntei algumas coisas do escritor não iniciante que Werneck é e gostei demais do tom cru, direto e lúcido.  Ele só participa de concursos literários que dão prêmios em dinheiro. Esse é o critério. A expectativa é ganhar dinheiro, mesmo a possibilidade de publicação não é atrativo suficiente. Ciente e que  com a internet, os concursos viraram uma espécie de loteria – milhares de concorrentes no mais singelo concurso – e de que o resultado depende muito de quem vai julgar, pois tem jurado que ainda acha bom aquele conto tradicional, com começo, meio e fim, poema com linguagem enfeitada, romance meloso.

Rui venceu o Concurso Nacional de Contos do Paraná de 1988, e esperava que isso abrisse algumas portas, mas diz que não aconteceu nada de importante. O livro Máquina de Escrever foi mal editado e pessimamente distribuído, ele acabou comprando mais da metade da edição na livraria que o editou quando o livro entrou em liquidação. A tal livraria? Já fechou!

Mas mesmo assim Rui W. de Capistrano ainda acredita que os concursos tem valor, pois ao menos estimulam os escritores.

Pedi ao Rui para falar de suas publicações e ele revela já ter publicado uns dez livros, sempre de modo independente. Estão disponíveis, alguns em sebos e o resto, em pacotes na sua casa. Ele só vende via Correios e a única estratégia de divulgação que adota é o envio de e-mails e de alguns exemplares pra jornais. Geralmente sai alguma coisa. A estratégia mais bem suscedida que já utilizou foi na divulgação do livro-talão de cheques Bife Sujo & Cia. Eram tiras de quadrinhos – desenhadas por Neri da Rosa –anunciado numa revista nacional, o que rendeu centenas de pedidos e o esgotamento da edição.

A opinião de Rui sobre os livros eletrônicos é de que as pessoas não leem no monitor, há incontáveis blogues recheados de textos, mas o público faz o que ele chama de “consulta de médico do SUS” — a procura é por fofocas rápidas, vídeos e fotos. A análise do sitemeter lhe permitiu constatar a , hoje ele não mantém nenhum. Mas há o outro lado, segundo ele: a facilidade em publicar livro por conta própria. “Está fácil – tendo dinheiro – editar livro. O ego fica satisfeito e pronto — acabou-se a neura!”

Deu curiosidade? Entre em contato com o autor, pelo e-mail rwcapistrano@gmail.com, assim você pode descobrir como comprar seus livros e poderá receber os artigos que ele publica como colaborar de alguns sites muito bacanas. Visite sempre que puder o site do Cartunista Solda e o blogue do Lee Swain. Sempre tem novidades.

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Atropelo

Eclipse nas coincidências do mundo: algo deixou de acontecer por mero acaso e aconteceu por puro capricho do que acontecia. Explicando: não foi por coincidência, o acontecido se deu por ter sido tramado pelo próprio acontecimento. Desmintam, neguem, tripudiem ― já está feito.

Foi assim: ele atravessava a rua, o outro dirigia. Quando houve o atropelamento, foi um remexer de asas, um girar de bandeiras, um bater de hélices.

― Ele apareceu do nada! ― Desculpou-se o que dirigia. ― Foi uma comunhão de máquina e sangue, capô e pernas ― concluiu ele.

Estavam em meio ao público, boquiaberto e entretido, esperando um pouco mais de vísceras e motivos para continuar a atravessar as ruas.

― O carro surgiu de lugar nenhum! ― Lamentou-se o atropelado, ― foi um encontro de surpresa e dor, de faixa de pedestres e indenizações.

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Movimento por mais e-books (bons!) em português

Você assinaria embaixo dessa demanda?! Se você pensa parecido com o pessoal que respondeu a pesquisa que originou o último artigo que escrevi a respeito, penso que sim.

Desde que ganhei um Kindle, em junho do ano passado, faço visitas regulares à Kindle Store e acompanho as evoluções na disponibilidade e preço dos títulos disponíveis na Amazon e em outras lojas que comercializam e-books ou que os disponibilizam gratuitamente (desde que não se trate de pirataria).

Faço isso principalmente por curiosidade, pois em termos de compras estou em geral amarrada à Amazon, porque o Kindle não é amigo de outros formatos que contenham DRM. Mas se alguém aí souber de e-books vendidos em ePub ou PDF e que não contenham DRM, por favor, me contem!

Voltando aos resultados de minhas investigações na Kindle Store, é importante comentar que em pouco menos de um ano o volume de títulos publicados em Português cresceu tremendamente (afirmação também válida para publicações em espanhol). Hoje (precisamente dia 01/05/2011) são mais de dois mil títulos. Claro, não estamos falando apenas de literatura, pois temos aí desde a Constituição Federal, dicionários e uma série de manuais sobre assuntos esdrúxulos.

A maioria dos títulos disponíveis em português na categoria literatura pode ser agrupada em: publicações de autor (há autores com cerca de 100 títulos publicados! Casos que por si só mereciam um estudo em termos de estratégia editorial ou de mercado, mas este não é meu nicho); clássicos (muitas vezes disponíveis em diversas publicações talvez com melhor qualidade) que já caíram em domínio público e bestsellers.

Mas se você está procurando um volume significativo de autores de peso da literatura mundial em nossa estimada língua, vai ter de procurar bastante e se contentar com pouco ou se conformar com algumas versões em espanhol. E isso é um pouco difícil de entender, a não ser que consideremos nossa péssima fama enquanto consumidores de literatura. Aprofundemo-nos um pouco: tem sentido o Saramago não estar disponível em português na Amazon? E em nenhuma outra língua, aliás, pois encontrei apenas uma versão em audiolivro do Ensaio Sobre a Cegueira? Também não há ainda títulos de Cristóvão Tezza, Mia Couto, Jorge Luís Borges, García Marquez, Philip Roth, Javíer Marías, Roberto Bolaño e Anton Tchekov, apenas para exemplificar ausências muito significativas.

Alguns desses autores estão publicados em e-book, mas geralmente em inglês, e outros sequer nessa língua estão disponíveis na Kindle Store (embora estejam na Amazon.com no formato impresso). Na Livraria Cultura e na Saraiva (percebi que não há diferença entre os títulos ofertados em um ou outro site) temos apenas o Caim, do Saramago (por R$ 27,50, enquanto a maioria dos livros na Kindle Store fica abaixo de US$6,00 – alguns na faixa dos 2 ou 3, na verdade).

A Submarino (+ Gato Sabido) cita mais de 3 mil títulos em português, mas valem os mesmos comentários para preços e ausências de nomes importantes.

A Simplíssimo oferta uma bom acervo de autores independentes e clássicos, cuja nota a ser feita diz respeito aos ótimos preços e à qualidade dos arquivos (ao menos para leitura no Kindle e no Alfa, outros dispositivos eu não testei).

Então, a pergunta que não quer calar, o que as editoras estão esperando para disponibilizar também títulos para este segmento de consumidores? Será uma questão relacionada à expectativa baixa de retorno financeiro ou à convicção de que leitores deste nicho de mercado não pretendem aderir tão cedo à nova tecnologia?

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Quem tem medo dos ebooks?

Medo talvez nem seja o termo, mas achei o título, embora meio chavão, adequado para uma reflexão sobre a situação deste novo elemento no mercado literário brasileiro. O adjetivo mais preciso talvez seja alheamento, apatia inicial.

Durante as férias, envolvida com este projeto coletivo, resolvi perguntar para alguns amigos, parentes e (des)conhecidos com quem troco idéias ou informações (através de grupos de discussão) sobre suas percepções quanto aos livros eletrônicos. Sendo otimista, creio que 30% dos perguntados respondeu. Se considerarmos o percentual geral de retornos isso seria normal e até uma boa amostra de certa população, mas tenhamos em conta que grande parte do público perguntado é gente com razoável ligação ao tema (listas de discussões sobre literatura, ebooks, sites de literatura e amigos que leem bastante – mas somente em meio impresso). Mas vamos adiante.

Muitas matérias tem transitado na web sobre o sucesso dos ebooks no mercado americano e sobre a reserva com que as editoras brasileiras tem tratado o tema (acanhamento seria mais preciso?). Algumas ainda perdem tempo (minha opinião) na discussão sobre a extinção dos livros físicos, mas a tônica geral passa pela interrogação sobre os porquês do estágio letárgico em que o ebook se encontra por enquanto. Quando ele chegará aos consumidores de forma massiva? Ou seria mais adequado perguntar quando os consumidores o quererão com maior apetite?

 Vejamos o cenário entre os amigos, parentes e pessoas com interesses comuns aos meus que responderam meu pequeno questionário: a imensa maioria (73%), e isso já era esperado, não possui dispositivos de leitura (ainda são caros no Brasil, isso é inegável), e muitos também não possui smartphones (45%). Isso explica, em parte, o fato de que 58% desses meus amigos e conhecidos nunca comprou (ou sequer baixou gratuitamente) algum ebook. Digo que explica porque é a primeira razão apontada para “justificar” o não uso dos ebooks, mas não é a única, vejam:

  1. 32% alegaram não ter comprado ebooks por não possuir um dispositivo de leitura e considerar muito desconfortável a leitura de uma obra literária no computador;
  2. 26% disseram que a oferta de títulos é baixa e os que estão disponíveis não atraíram sua atenção (essa é uma resposta válida mesmo para quem já comprou, aliás…);
  3. 16% assumem total desinteresse por livros eletrônicos (não aceitação de outro formato além do impresso);
  4. Além destas, outras razões como as dificuldades para entender / manejar os diferentes formatos de arquivo / programas necessários para leitura; o preço elevado dos ebooks no Brasil; desinteresse pela tecnologia e insatisfação com a qualidade dos ebooks também foram citadas como outras razões para não comprar ebooks.

Agora vejamos o que pensa a minoria que já comprou ebooks (42% – o que não deve ser tomado como uma estatística animadora, pois a amostragem é direcionada a um público potencialmente envolvido com os tais) ou fez downloads de títulos gratuitos. Mesmo aqui, nem tudo são flores e as principais queixas são:

  1. a dificuldade de instalar / manejar programas para leitura (50%);
  2. a dificuldade para entender / manejar os diferentes formatos de arquivo utilizados (21%);
  3. dificuldades na transferência dos arquivos para os dipositivos de leitura (7%); e
  4. outras razões, como as limitações impostas pelo uso de DRM e o desconforto da leitura no computador (totalizando 7%).

Este breve levantamento não tem nenhuma preocupação acadêmica nem compromisso com metodologias de amostragem, foi apenas um pretexto para engrenar uma reflexão sobre quais poderiam ser as possibilidades de contribuir para uma mudança no atual cenário. E isso considerando como discussão superada a “competição’ entre livros físicos e eletrônicos, mas vendo os ebooks  com uma ferramenta nova e muito útil para fazer a literatura mais acessível a um número maior de pessoas. Mas há muitos entraves para que isso ocorra. Realmente não é agradável  ler no computador, e com o preço dos e-readers, temos aí um estímulo a menos. E mesmo para quem está disposto à experimentar o ebook sem ter um e-reader, outro ponto importantíssimo, ao menos para aquele segmento de leitores que prefere distância dos Best Sellers e está mais interessada em literatura com letras maiúsculas, é que realmente a oferta em língua portuguesa ainda deixa muito a desejar (embora tenha melhorado significativamente nos últimos 12 meses). Por outro lado, para os “leitores-avestruz” (não é uma crítica, apenas uma figura de linguagem, sim!?) há uma grande disponibilidade de versões gratuitas (muitas piratas, é verdade!)e uma enxurrada de textos curtos (e muitos são realmente bons) espalhados em zilhões de blogs e similares. Por que, então, comprar um ebook? Essa pergunta um colega de uma lista de discussão jogou como provocação para que refletíssemos e não alimentássemos expectativas excessivas com nosso projeto. E é um argumento corretíssimo.

Esperança zero, então? Não, nem otimismo irracional, tampouco o desespero. Melhor analisar a situação sob o ponto de vista do tempo necessário para que se colham resultados em qualquer intento. Alguém aí já deve ter ouvido falar do livro Outliers, não? Eu não li ainda, mas concordo completamente com o argumento. Sucesso por mero acaso e rapidamente é mito.  Por isso, incito quem tenha interesse ou vontade de ver ebooks decolando no Brasil a partilhar certas práticas:

  • Experimente! Mesmo que não queria comprar ebooks, procure amostras grátis ou publicações gratuitas (mas não piratas, por favor!);
  • Partilhe! Leu algo que te agradou? Comente, divulgue o link do autor / editora. Não gostou?? Faça o mesmo (com respeito, claro).
  • Resista menos! Não pense no ebook como um concorrente do insubstituível livro de papel, com cheiro, tato e história, mas como uma facilidade de acesso ao que realmente interessa: o texto!
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Jorge e as mudanças imperceptíveis

Abrem-se as cortinas. Sim, isto faz parte daquele meu irremediável costume de começar histórias com períodos extremamente curtos e sem sentido aparente. Acho belo – aí vai outro período curto. E talvez eu goste disso porque creio que as nossas transições são feitas num período curto. Há quem diga que “não se torna isso do dia pra noite, não se faz aquilo instantâneamente”, por causa disso, ou daquilo, ou daquilo outro – que é referencial dogmático. Pois eu digo que não: Todas as mudanças são feitas num período extremamente curto. Esse período se revela tão curto, que acaba por se disfarçar na corrente de mudanças, nos dando a impressão de que nada se faz do dia pra noite. Mas na verdade deixamos o passado para trás e ignoramos as consequências disto com a mesma facilidade que nos recusamos a mudar, por medo desses mesmos reflexos. Percebemos esse período curto quando moramos numa cidade voltada para o mar. Jorge mora numa cidade voltada para o mar. E como se não bastasse, se permite viver na avenida beira-mar.

Onde começa o mar? Onde termina a cidade?

Pois o mar está revolto em nossos eletro-eletrônicos. Trocamos de tevês e computadores e microondas muito rapidamente. A maresia invade a cidade, o mar invade o vazado dos prédios, enferrujando e deteriorando os nossos metais.
Abrem-se as cortinas e Jorge olha a avenida. Sinais, faixas, pessoas no calçadão, automóveis. Para ele explicar isso era fácil, pelo menos era o que pensava, ou não pensava, enquanto segurava a caneca de café que exalava uma fumaça fraca. “Ali começa o mar, na areia, horas mais em cima, horas mais embaixo, a maré dita seu começo como um general dita o posicionamento de suas tropas.” Mas ele na verdade não podia explicar. Para ele, as mudanças da maré se exibiam na sua lentidão. Ele dizia que sim, e eu já me nego a compactuar com Jorge: Essas mudanças são feitas num período curto. Num milésimo de segundo, no exato momento, a maré tinha ficado imperceptivelmente mais alta. Mas quem poderá dizer que não está mais alta? Quem poderá dizer que não existe Deus? Creio eu que Ele tenha iluminado Jorge no momento exato. Tentou abrir a janela de metal, não conseguiu. Ali estava o mar, tinha se infiltrado em sua casa, no enferrujado de sua janela e em todos os seus eletro-eletrônicos. Ele percebeu que pisava no molhado metafísico do mar. Jorge sentiu-se alegre, a água estava fria, subiu-lhe um calafrio, um nervoso na espinha dorsal. Precisava sair. O carro dele não pegava. Talvez fosse o frio incomum que fazia naqueles dias, talvez não, nunca entendi muito bem os automóveis. Ele precisava de um carro novo. Sua vida também não pegava, precisava de uma nova, mas infelizmente, vida só se pode ter uma.

Jorge andava abstraido pelo calçadão da praia. Estava mergulhado no mar que descobrira há pouco. Encontrou um parque, com as barras do portão enferrujadas. Estava ali, era o sinal do mar, de que ele existia ali. Deitou-se na gangorra. Não via o céu direito, os prédios lhe davam esta visão defasada, irreal, parcial, do céu nublado que reinava. Era a cidade. E a cidade Jorge? Com o que lhe parece a cidade? A visão íntima dele era que o mar não se encaixava na cidade. Nunca havia percebido que morava à beira-mar. Não percebido óticamente, mas percebido com a alma, com a idéia, a razão. Para ele, cidade e mar não poderiam coexistir em paz: Ou o mar destruía a cidade, ou a cidade ao mar. Nunca havia percebido que o mar era o que havia erigido o seu prédio. Embora vivesse rodeado de construções – as constantes mudanças! – só atentava para a estaticidade do seu edifício. A cidade é como o mar, Jorge. É como a maré. Não se pode dizer onde começa, onde termina. A cidade envolve os seus tentáculos onde quiser. Mas, e no mar? Lá está a plataforma de petróleo e os navios cargueiros. Quem poderá dizer que a cidade não existe lá? Jorge olhava a plataforma. Era um prédio como os outros. Os prédios em construção – constantes mudanças! – o cinema desativado, os bares, o metrô, a cidade mudava numa rapidez novamente imperceptível. Era o curto período da hora útil, que fazia a cidade pender para um lado, a maré descer, e a hora inútil subia o mar que a plataforma enferrujava. Jorge sorriu, pisava agora no concreto. Mas era um concreto abstrato. Quem dera todos os dias as cortinas abrissem como hoje se abriram.

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Minguante

   Quando comi pimenta na casa dele, e a ardência me inundou os olhos, não reclamei. Acho mesmo que foi gostoso porque o incêndio da boca ficou guardado para a madrugada intensa. Era uma ardência amansada com a doçura que eu imaginava nele.
   O sal de agora não é para intensificar sabor, é somente a troca da indelicadeza de sempre pelo abandono. Largada. Sozinha. Vão apontar o dedo para mim na rua e dizer que mereci. Rapaz direito como ele não faria isso de graça.
   E eu penso que não saberei me defender e me revolto com essa fraqueza para reagir. Onde se viu ficar desmoronando, sentada na cama, quando depois da vidraça o retalho de lua insiste, amarelada e intensa, mesmo com toda a nebulosidade? Sem cabimento isso.
   Vou até a janela e o lago dourado abaixo do furo nas nuvens parece um poço. Plenilúnio. Lembro dessa palavra somente quando se aproxima o quarto minguante. Incoerente isso, mas é desse jeito que acontece. Na primeira vez que li o termo tive de procurar no dicionário. Eu era tão curiosa.
   Sinto uma crosta seca no rosto depois de tantas camadas de pranto, devo estar horrível, com ares de hipnose, ausência, sei lá. E se eu me cansasse, e se essa mágoa sumisse? Se eu sumisse? Ele não vale isso, nunca se importou muito comigo e, pior de tudo, nunca sequer fingiu se importar. E admitir isso é uma fincada a mais da mesma dor. A de sempre, a de não se bastar.
   E agora esse telefone tocando. Muito tarde, mesmo que ele quisesse sanar a ofensa, fazer planos, dizer carinho. Besteira. Não pode ser ele, é orgulhoso feito nem sei o quê. Não atendo, não quero falar. Preciso mesmo é dormir, sonhar, cantar alto como se estivesse bêbada. Será que estou?
   O céu parece chumbo grumoso, promessa de frio. Odeio frio e garoa, por que não me vem o sono? E se eu acordasse cheia de ímpetos? Mandá-lo longe antes de ele oficializar o que iniciou batendo à porta. Ao menos um ensaio de orgulho. Funcionaria?
   Não fosse essa coisa de lógica e biologia, da vida real, enfim, eu poderia metamorfose. Um enredo sobrenatural, abrir as comportas da ferocidade que ninguém suspeita no meu corpo magro. No lugar disso, olho a luz de cabeceira e as palavras dele parecem ecoar dali e se grudar nas paredes. E eu faço o quê? Mais converso para dentro que vivo. Falo para fora também: encaro o espelho como se fosse ele e atiro xingamentos frouxos. Aliás, o vidro está muito sujo, marca de dedos e cabelos molhados de quando fico aqui confabulando com minha cara insone. Desvio do vermelho das pálpebras, e acho bonitos meus cílios. Mas isso ele nunca me disse. Só afagos corretos enquanto eu, por dentro, berrava funduras de encharcar os dedos. Ele beijava minha testa. Vê se pode!
   Ainda não é madrugada, mas a noite já não é a que começou ontem. Deve ser esse o gosto do fim quando não vem certeza de outro começo. Não vou me vestir, podem pensar que enlouqueci. Vai parecer isso mesmo se me enxergarem com esses sapatos cravando na areia. Uma ave daquelas predadoras. Ah essa figura me serve! Não mais o roxo nos lábios e sob as unhas quando venta úmido assim. Águia-pescadora é o nome da espécie migratória que o guia turístico nos mostrou naquele feriadão. Garras fortes.
   Escrever epílogos na areia é ridículo, por isso mesmo vou fazer. Afundo o saldo para o contorno de cada letra, raivosa, como se fosse uma bofetada no sorriso educado dele, e amanhã ele terá trabalho para escapar das unhas, das asas do animal que consegue teimar com qualquer mau tempo. Se não chover muito forte vai reconhecer a letra e pensar que morri, que fugi ou andei bebendo outra vez, mas não me encontrará.

Uma variação desse mesmo tema foi publicada na época da Revista Mirabolante, mas utilizando narração em 3ª pessoa. A mudança, me parece, tornou tudo mais incisivo. E mais recentemente, foi postado no Pedaços de Possibilidade.

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E-Sorteio

A virtualidade vulcânica nos apresenta novidades no ritmo do pensamento, lapidadas a partir de idéias puras, matéria prima incandescente. Aqui vai mais uma: um E-Book de contos rápidos e estonteantes, feito a informação eletrificada que corre na sua máquina.

Para ganhá-lo é simples: Retuíte a frase da promoção e siga o perfil @econtistas no twitter. O resultado sai aqui e no twitter.

Siga @econtistas e RT: E-Sorteio do E-Contos, e-book de contos eletrificados http://kingo.to/uuu

Atualização:
A plataforma “Presente” do site Gato Sabido está em manutenção, portanto fora do ar. Faremos o sorteio assim que voltar a funcionar.
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Com quantas palavras se conta uma história?

It’s extraordinary – says one woman.

It is extraordinary – says the other.

Lydia Davis 

Fico pensando no motivo pelo qual a brevidade impera na escrita publicada na internet. Será que é a demanda de leitores que, por falta de tempo ou paciência, não querem se dedicar à leituras um pouco mais extensas, ou será o desconforto da maioria em ler na tela do computador?  Será que com os e-readers, i-pads e etc isso vai mudar? E os autores? A suscitez é uma necessidade da ferramenta internet, ou uma necessidade estética? Ou será o que?  Entretanto, há autores que mesmo não envolvidos com o mundo virtual,  trabalham com narrativas muito curtas. Um exemplo é a escritora americana, tradutora e professora na Universidade de Albany, Lidia Davis. Ela é conhecida exatamente pela brevidade de seus contos e se interessa em criar narrativas da maneira mais essencial possível. Infelizmente, ela ainda não foi publicada aqui no Brasil. Me encanta a ideia de contar uma história com apenas algumas poucas frases. Inspirada por essa ideia me arrisquei nesse desafio. Eis o resultado:

Naquela tarde de verão a chuva caiu gorda, deixando encharcadas as bromélias e begônias do jardim. A violeta no vaso, espiava da janela e sonhava.

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